O Ibirapuera, em mais uma edição do C6 Fest, foi palco para o English Teacher provar que é uma das bandas mais interessantes surgidas nos anos 2020. Tocando pela primeira vez no Brasil, a banda fez um show que empolgou até um público que em grande medida não estava ali para vê-los.
Locados na apertada tenda MetLife, o palco secundário do fim de semana do festival, tocaram logo após Maria Esmeralda e convidados – atração que, confesso, não vi e não conheço ninguém que assistiu – e antes de duas das atrações mais esperadas do festival, The Last Dinner Party e Wilco, que tocavam na sequência.
Apesar da tarefa um tanto ingrata de tocar as 15h, antes de duas atrações maiores, que já amontoavam fãs guardando seus lugares na grade, não se fizeram de rogados. Fizeram uma performance vigorosa e ocuparam o espaço: literalmente – ao contrário da tarde de sábado, que viu um palco esvaziado até o Perfume Genius – e figurativamente, com uma plateia que teve a atenção fisgada
This Could Be Texas, seu premiado álbum de estreia foi executado quase na íntegra. A cada música, na performance de 1 hora, foi possível ver a banda crescer e uma plateia rígida ficar cada vez menos apática e se empolgar.
O mesmo pode ser dito pela vocalista, Lily Fontaine, que começou o show comedida, escondida sob um conjunto esportivo, e terminou sem jaqueta, correndo de um lado para o outro – seja no palco ou no fosso.
Completada por Lewis Whiting, Douglas Frost e Nicholas Eden, além de uma violoncelista que não identifiquei, a banda formada em 2020 apresentou seu repertório repleto de acordes pós-punk, minimalistas, que se alternam com riffs de guitarra imprevisíveis.
Junto aos vocais, ora melódicos, ora falados, ecoam outras bandas britânicas contemporâneas, como o black midi, Porridge Radio e Black Country, New Road. A complexidade dos arranjos, que remetem aos ropantes do Slint, entregam a formação acadêmica no Leeds Conservatoire, local onde os membros da banda se conheceram e se formaram.
A apresentação foi aberta pela música que dá nome ao álbum, com direito a piano e violoncelo, que já mostra de cara a flexibilidade da banda. A ela se seguiram Broken Biscuits e I’m Not Crying e You’re Crying.
A55, do EP Polyawkward, foi um dos pontos altos do show e junto com You Blister My Paint serviram para autenticar em cartório a versatilidade do conjunto.
Os dois primeira terços do show também tiveram seus momentos mornos, que por vezes quebraram a crescente de um set que transitava entre o art-punk e baladas melancólicas, tão imprevisível quanto as composições. Sinal da juventude da banda, que ainda tem um repertório limitado. Not Everybody Gets to Go to Space, com sua levada math-rock, é uma das que não funcionaram tão bem ao vivo e dispersaram o público.
O ponto de virada foi R&B, primeiro single da banda, que faz menção às contradições de ser uma mulher mestiça num gênero dominado por homens brancos. Atendendo ao pedido de uma fã, que se convidou para assumir a guitarra na música, a vocalista confessou que nunca havia feito isso antes, mas topou a brincadeira.
A performance não decepcionou e a empolgação do público, mas principalmente de Lily, agora livre do instrumento, foi maior. Num impulso que claramente não estava no script (a julgar pelo desespero do roadie), a líder da banda desceu do palco e terminou a performance nas grades, para catarse do gargarejo.
Na sequência, com Lily ainda no fosso, emendaram Nearly Daffoldis, outra das grandes faixas do disco vencedor do Mercury Prize 2024. A música, uma reflexão sobre sonhos não realizados e aceitação, foi cantada a plenos pulmões e, após o solo, finalizada sobre o palco.
Construíndo um clímax invejável para um banda com pouco mais de uma dezena de músicas na carreira, tocaram em seguida The Biggest Paving Slab. Maior single da banda até o momento, é uma composição sobre a vida no interior da Inglaterra.
Para fechar, encerraram com Albert Road, balada que fechou o show com uma perfomance vocal emocionante acompanhada de uma bateria quase marcial.
Enquanto caminhava para o palco principal, após a sequência de shows do English Teacher, The Last Dinner Party e Wilco, senti que havia testemunhado não apenas um show, mas uma afirmação vibrante de que o rock continua pulsando com vigor e relevância. O English Teacher não apenas tocou suas músicas; eles nos lembraram por que nos apaixonamos por elas em primeiro lugar.”

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